RESENHA: QUANDO A ESCOLA MATA A LEITURA

 


QUANDO A ESCOLA MATA O PRAZER DE LER

 -----------------------------------------------------------------

GALLAGHER, Kelly. Readicide: how schools are killing reading and what you can do about it. (Leituricídio: como as escolas matam a leitura e o que se pode fazer sobre o problema) Portland, Maine: Stenhouse Publishers, 2009. 150 p.

--------------------------------------------------------------------

Ezequiel Theodoro da Silva 

Faculdade de Educação - Unicamp

Há livros que explicam problemas educacionais e outros que nos obrigam a desconfiar daquilo que fazemos diariamente em nome da educação. Readicide, publicado em 2009 pelo educador norte-americano Kelly Gallagher, pertence a esta segunda categoria. Seu título, provocativo e desconcertante, sugere uma espécie de assassinato pedagógico da leitura. A tese que atravessa a obra é simples e perturbadora: a escola, instituição encarregada de formar leitores, pode estar contribuindo para destruir o interesse dos estudantes pelos livros.

 Escrito no contexto norte-americano de crescente padronização curricular, intensificação das avaliações e cobrança de resultados mensuráveis, o livro ultrapassa as fronteiras dos Estados Unidos. Dezessete anos depois de sua publicação, suas advertências permanecem atuais, especialmente diante da fragmentação da atenção, da expansão das plataformas digitais e das dificuldades de compreensão leitora. No Brasil, onde persistem desigualdades de acesso à cultura escrita e políticas educacionais frequentemente subordinadas a indicadores quantitativos, a obra oferece um espelho incômodo. Gallagher nos convida a formular uma pergunta fundamental: de que adianta ensinar técnicas de leitura se, ao final da escolarização, os estudantes não desejam mais ler?

 O argumento central do autor é que o leituricídio não resulta simplesmente da ausência de livros, da suposta preguiça dos estudantes ou da concorrência dos meios eletrônicos. Ele pode ser produzido pelas próprias práticas escolares, particularmente quando a leitura deixa de ser uma experiência de descoberta, interpretação e envolvimento pessoal para se transformar numa sucessão interminável de exercícios, questionários e avaliações. O estudante aprende – internaliza - que ler significa cumprir tarefas, localizar respostas esperadas e demonstrar competências exigidas pelo professor. A leitura perde sua dimensão cultural e prazerosa para assumir a aparência de uma obrigação burocrática.

Um dos aspectos mais contundentes da análise de Gallagher diz respeito à contradição entre o discurso escolar de valorização da leitura e as condições efetivamente oferecidas para sua realização. Professores afirmam que ler é importante, mas frequentemente organizam o trabalho pedagógico de tal maneira que o contato com os textos se torna fragmentado, apressado e instrumental. A literatura é dissecada em pequenas partes, interrompida por perguntas sucessivas e submetida a procedimentos de controle que impedem o leitor de estabelecer uma relação pessoal com a obra. Paradoxalmente, quanto mais a escola pretende assegurar a compreensão de cada detalhe, maior pode ser o risco de eliminar o encantamento que sustenta a experiência leitora.

 Gallagher identifica dois movimentos aparentemente opostos, mas igualmente prejudiciais: o excesso de ensino aplicado a um texto e a insuficiência de orientação oferecida ao leitor. No primeiro caso, o professor controla excessivamente a leitura, interrompendo sua fluência e convertendo cada passagem em objeto de explicação. No segundo, abandona o estudante diante de textos complexos, sem oferecer os conhecimentos prévios e os apoios necessários à compreensão. Entre a superproteção pedagógica e o abandono didático, desaparece aquilo que deveria constituir o coração do ensino: a mediação competente, sensível e progressivamente emancipadora.

Outro núcleo fundamental da obra refere-se ao empobrecimento das experiências de leitura decorrente da obsessão pelos resultados dos testes padronizados. Quando o currículo passa a ser organizado prioritariamente em função das avaliações, os estudantes são privados de oportunidades de leitura extensa, diversificada e intelectualmente desafiadora. Em vez de livros completos, encontram fragmentos; em vez de percursos interpretativos, exercícios de reconhecimento; em vez de encontros com diferentes visões de mundo, treinamentos destinados a produzir respostas corretas. A leitura deixa de constituir uma prática cultural para se converter em desempenho escolar.

Em contraposição, Gallagher defende uma formação leitora que articule obras literárias, textos informativos, leituras escolhidas pelos próprios estudantes e experiências compartilhadas de interpretação. Formar leitores exige tempo, acesso a livros, diversidade de materiais e oportunidades concretas para que a leitura seja vivida como atividade intelectualmente estimulante. Não basta recomendar que os alunos leiam: é necessário criar ambientes nos quais a leitura tenha presença cotidiana e sentido pessoal. O autor também insiste na importância dos conhecimentos de mundo, reconhecendo que compreender textos depende de repertórios culturais que não se desenvolvem exclusivamente por meio de exercícios de habilidades isoladas. 

Talvez a contribuição mais interessante de Readicide esteja em sua recusa de aceitar como inevitável o divórcio entre aprendizagem e prazer. Gallagher não defende uma escola que abandone o ensino sistemático da leitura, tampouco propõe substituir o estudo rigoroso dos textos por atividades recreativas. Sua preocupação consiste em encontrar um equilíbrio entre orientação pedagógica e autonomia, aprofundamento interpretativo e liberdade de exploração, exigência intelectual e envolvimento afetivo. Nesse sentido, a obra oferece uma crítica importante tanto ao espontaneísmo quanto ao tecnicismo. O desafio não é ensinar menos, mas ensinar melhor, sem sufocar aquilo que torna a leitura uma experiência humana insubstituível. 

A apreciação crítica do livro, contudo, exige algumas ressalvas. Sua argumentação está vinculada às condições institucionais norte-americanas e privilegia as práticas escolares como responsáveis pelo afastamento dos estudantes da leitura. Embora essa perspectiva seja produtiva, ela não explica suficientemente os fatores sociais, econômicos e culturais que condicionam a formação leitora. No Brasil, seria impossível discutir o problema sem considerar a desigualdade na distribuição de livros, a precariedade de muitas bibliotecas escolares, as condições de trabalho docente e a fragilidade das políticas públicas de leitura. Há, portanto, o risco de que a denúncia do readicídio, interpretada superficialmente, termine responsabilizando professores por problemas que também são estruturais. 

Outra limitação está na necessidade de aprofundar a dimensão política da leitura. Gallagher demonstra como determinadas práticas escolares enfraquecem a formação de leitores, mas sua reflexão pode ser ampliada mediante o diálogo com Paulo Freire, para quem ler não significa apenas compreender palavras, mas interpretar criticamente o mundo. Sob essa perspectiva, o readicídio não representa somente a destruição do prazer de ler: significa também o enfraquecimento das possibilidades de participação cultural, autonomia intelectual e intervenção democrática. Uma escola que transforma a leitura em mera decodificação ou treinamento para provas não empobrece apenas o currículo; compromete a formação de sujeitos capazes de questionar a realidade e produzir novos sentidos para sua existência. 

Essa ampliação torna a obra especialmente oportuna diante da cultura digital contemporânea. Se Gallagher denunciava, em 2009, a fragmentação pedagógica da experiência leitora, hoje precisamos acrescentar a fragmentação produzida pela economia da atenção, pelos algoritmos e pelo consumo acelerado de informações. A escola enfrenta, assim, um duplo desafio: resistir à superficialidade de determinadas rotinas escolares e oferecer alternativas à dispersão que caracteriza parte da vida digital. Não se trata de condenar as tecnologias, mas de impedir que a velocidade da circulação das mensagens substitua o tempo necessário à compreensão, à reflexão e ao pensamento crítico. 

A recomendação de Readicide é, portanto, inequívoca. Trata-se de uma leitura necessária para professores, bibliotecários, formadores de docentes, gestores educacionais e responsáveis pela formulação de políticas públicas. Sua maior virtude não está em oferecer uma teoria inteiramente nova da leitura, mas em tornar visível uma contradição frequentemente naturalizada: a possibilidade de ensinar a ler e, simultaneamente, ensinar a não gostar de ler. O livro merece circular especialmente nos cursos de licenciatura e nos espaços coletivos de formação continuada, onde suas provocações podem desencadear revisões concretas das práticas pedagógicas. 

Ao terminar a leitura, permanece uma inquietação que deveria acompanhar todos os educadores: quantos estudantes atravessam anos de escolarização aprendendo a responder perguntas sobre textos, mas sem descobrir o que significa verdadeiramente encontrar-se com um livro? Talvez o grande mérito de Kelly Gallagher seja justamente obrigar-nos a reconhecer que o fracasso da educação leitora não se mede apenas pelo número daqueles que não conseguem compreender o que leem, mas também pelo número daqueles que, podendo ler, já não encontram razões para fazê-lo. 

Eis a advertência que faz de Readicide uma obra atual e necessária: a escola não cumpre sua missão quando apenas ensina os estudantes a ler. Ela a cumpre verdadeiramente quando consegue fazer com que a leitura continue viva depois que termina a obrigação escolar.

Comentários

Postagens mais visitadas